“(…) Só há libertação de Babel pela algaravia”
– Maria Filomena Molder, em Babel, Arabesco e Algaravia
De origem incerta, a citação em latim “quod me nutrit me destruit” (trad. O que me nutri também me destrói), flutua solene na parte superior da composição de Algaravia, produzida pela artista carioca Andy Villela. Defendida por alguns pesquisadores como uma variação de um outro mote, mais antigo, cujas célebres remissões podem ser encontradas nos escritos do poeta e historiador Samuel Daniel ou nos sonetos do dramaturgo William Shakespeare, ambos ingleses.
SIMÔNIDES – E o quarto?
TAÍSA – Esse uma tocha incandescente
Traz, invertida, e embaixo esta sentença:
“Quod me alit me extinguit”.
SIMÔNIDES – Assim mostra os extremos da beleza,
Que lhe dá vida e o mata com fereza.
(SHAKESPEARE, 1611, Ato II, cena II)
Fazendo eco à interpretação de Simônides, mas despindo-se de uma pretensão ingênua ao belo, Villela concebe um tríptico para refletir sobre os contrastes e meandros de sua produção. A jovem artista, cujo interesse acerca das possibilidades pictóricas motivam a sua produção, concebeu Algaravia como uma experimentação de diferentes técnicas e gêneros, sobre os quais a tela costura imagens fragmentárias. Assim se originam tais cenas opacas, construídas na dissolução de sua própria fatura pictórica, pontuados em sua presença por uma instabilidade reinante que impossibilita a fixidez da composição em um único estilo.
A tela esquerda, de tons mais claros, é construída mediante uma atenção maior ao fragmento. Ancorada pela releitura das alegorias oriundas do conjunto de afrescos As Virtudes e os Vícios (1304-1306) de Giotto, tais figuras se camuflam em camadas de tinta que, quando não as sobrepõem parcialmente, retardam a sua formação retiniana pela proximidade de cor com o seu entorno. Nesse sentido, a primeira tela que compõe o tríptico carrega um conjunto de elementos que refletem sobre a condição humana na história da arte ocidental. Sua recuperação se dá, contudo, mediante o arruinamento de sua função em uma construção visual lacunar, tornando tais figuras menos instrumentos de reflexão moral e mais exercícios de composição.
Predomina nas duas telas direitas, em contraste, a presença de formas mais demarcadas em paleta de maior saturação. De tom sóbrio, o segundo ato de Algaravia parece ecoar, tomando como reflexão o caráter sonoro de seu nome, os meandros graves e soturnos de sua composição. Entre representações cognoscíveis e seres fluidos, a relação de figura e fundo se torna demarcada pelo uso ostensivo de cores sólidas. Aqui, mesmo o silêncio encontra lugar, como na cena inferior esquerda, cuja coloração e tema lembram as pinturas da fase taciturna de Edward Hopper, ou, ainda, na extremidade oposta, em que a face-sem-boca sugere uma interpretação sintética das figuras geométricas de Ismael Nery. O serpentear de padronagens recortam e costuram as três telas, ora enquadrando os limites do suporte, ora interligando as cenas.
Partindo da “linguagem bizarra, ininteligível” em que o termo algaravia é descrito pelo Petit Larousse, a artista carioca desloca o aspecto pejorativo da palavra, comumente endereçado a um estrangeiro que não se adequa à linguagem comum, no anseio de adereçar o estranho como aquele que habita o seu próprio fazer. Num mergulho corajoso à dissonância, Villela segue na contramão de um cenário que preza pela ordenação e categorização da prática artística e parte em defesa da multiplicidade. No decorrer de sua caminhada, é possível – e provável – que determinadas práticas aqui expostas se consolidem, mas é de se admirar que tal cristalização não pressuponha a inibição da experimentação em detrimento de um estilo. Algaravia é a expressão máxima de Villela neste caminho.
Lucas Albuquerque